«Cada ratinha tem o seu mistério e desvendar uma não quer dizer que percebemos o mistério total», Puchkine, Diário Secreto
segunda-feira, junho 26, 2006,2:56 da tarde
Fenómeno
Sou daquelas pessoas que se sente bem ao pé de livros. Sinto. Nada consigo fazer contra isso. Sinto por vezes que me sinto melhor ao pé de livros do que ao pé de pessoas, mas isso já são outras estórias.
As livrarias têm um lado perverso bastante maior do que o das bibliotecas porque se podem levar aqueles livros para casa e nunca mais os devolver. Serem nossos. Podermos sujá-los, tomar conta deles, limpar-lhes o pó, maltratá-los , o que quisermos. Para além da evidente parte económica que isso envolve, confesso que sempre é muito mais sedutor. É o eterno sentimento de posse, é o que é.
Mas o fenómeno surge no momento em que descobri uma livraria onde não me sinto bem. Eu, que sou daqueles que leio descalço na FNAC do Chiado, que ainda passo horas de pescoço dobrado na primeira livraria da minha vida, a Caminho em Santarém, que mexo nos livros, os cheiro, testo a qualidade da folha e até leio a ficha técnica de cada um dos possíveis interesses, descobri mesmo uma livraria onde não me sinto bem.
O grande problema é que é mesmo nesta simpática vila alentejana que me acolheu, qual refugiado ribatexano, vindo de terras guanches.
Eu, que sempre tinha acalentado uma certa imagem poética pelas pequenas mas bem recheadas livrarias de província, sonhando mesmo um dia abrir uma, tive que desistir do sonho. Ou adiá-lo para uma outra vida.
Ali, quase sinto que nos livros em que toco fica uma idelectível impressão digital que será posteriormente investigada e que não sou de todo bem-vindo. Não há um sorriso, um inteligente pedido de ajuda, uma recomendação e quase me sinto impelido a agradecer depois de fazer uma compra. Assim sendo, recorro mesmo à FNAC do Chiado, à primitiva Caminho, à Bertrand do W (onde trabalha o meu muito querido Gonçalo que está aqui), aos que se vendem nas estações de serviço de uma qualquer auto-estrada ou aos vendedores de rua. Em todos esses sítios me sinto efectivamente melhor e logo muito mais consumista no literário sentido da coisa.
 
posted by magnuspetrus
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