«Cada ratinha tem o seu mistério e desvendar uma não quer dizer que percebemos o mistério total», Puchkine, Diário Secreto
domingo, junho 25, 2006,5:07 da tarde
Próximo artigo para o tal jornal local que niinguém conhece mas que já todos ouviram falar

Constipação de um sonho de verão

Uma das poucas certezas que ainda tenho nestes dias que correm é de que chegou o Verão. Chegou igual a ele próprio, tímido e ao mesmo tempo arrebatador, capaz de transformar os mais íntimos desejos num banho numa dessas praias que se espalham de Melides a Tróia.

O dia laboral começa logo com a ideia de o vir a terminar na praia e findo o trabalho diário, deixo-me levar pelo tal desejo supracitado. Uma vez equipado a rigor, começam as indecisões: que levar para ler? Embora esteja a ler Pedro Mexia, se calhar o MEC é mais agradável para se ler na praia. Que ouvir durante o caminho? O facto de ter andado a tentar desesperadamente desconstruir as linhas melódicas de Monteverdi não me parece ser suficiente face a um muito mais veraneante Bob Marley. O reggae tem destas coisas, que se há-de fazer?

Resolvida a decisão da praia que irá albergar o descanso do meu corpo por um fim de tarde, resolvo dedicar-me à interpretação dos fantásticos sinais que esta estação nos transmite:

Os adolescentes, claramente aliviados pelo fim das aulas, pululam alegremente tentando conquistar um qualquer amor de verão. Os que não pululam terão ainda os famigerados exames nacionais à sua espera e rezam a um qualquer Neptuno destes mares que os ajude. Os miúdos aproveitam para gastar as forças em jogos e corridas intermináveis que em tudo agradam aos pais que pensam na noite tranquila que se seguirá. Há ainda os contemplativos da cerveja e do petisco, os que comentam tudo e mais alguma coisa, os que nos irritam, os que nos perturbam, os que não nos deixam nem dormir uma merecida sesta.

O enorme estado de irritação em que fico, faz-me lembrar por breves instantes a situação de milhares de professores que desconhecem por completo o seu futuro. Sinto uma leve picada no coração, mas consigo controlar os meus sentimentos quando olho para a terrível fúria do mar em fim de dia. Limitações de quem tem 24 anos destas coisas de escolas, mais coisa menos coisa.

Arrumo as coisas, o Bob volta a tocar no rádio e regresso a casa, já a pensar no próximo dia de trabalho que culminará com mais um agradável fim de tarde na praia.

 
posted by magnuspetrus
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