«Cada ratinha tem o seu mistério e desvendar uma não quer dizer que percebemos o mistério total», Puchkine, Diário Secreto
terça-feira, agosto 01, 2006,9:56 da manhã
Muito sofre o tal jornal local
Soube (porque há coisas que ainda se vão sabendo) que um recém-licenciado a caminho de uma pós-graduação estava interessado em biblioterapia.
Sejamos conscientes: biblioterapia é uma coisa que não pode existir.
Desde que me lembro que sei ler que nunca mais fui uma pessoa saudável. Os intervalos da escola em que era exibido às outras professoras como bom leitor, os verões familiares em que tinha que ler forçosamente Florbela Espanca sempre que passávamos em Vila Viçosa ( e acreditem que era bem mais vezes do que as que uma criança de nove anos pode achar saudável), até à conturbada adolescência com o Kafka e o Nietzsche a pulularem alegremente à minha volta.
Esses dias acabaram, mas os actuais não são melhores. Há um nervoso de palavras que não passam já só a pensar nas que se seguirão. Ou seja lá isso o que for.
A biblioterapia terá, pois, que passar, numa primeira fase pela introdução do bicho da leitura (vá lá que consegui não parafrasear o Zink) em nós. A leitura é mesmo um pouco como a eterna questão do catolicismo português: a grande maioria da população sabe efectivamente ler, mas muitos poucos o fazem.
Seja como for, é uma actividade sedentária, contrária às directivas anualmente emanadas pela Fundação Portuguesa de Cardiologia. Para além disso, implica igualmente um crescimento dos problemas de visão. E se todos formos pessoas perfeitamente saudáveis, o estado conseguirá finalmente reduzir a despesa com o sistema nacional de saúde.
É, portanto, aconselhável a não-aplicação dessa terapia, que como quase todas as outras, surgiu no pós segunda guerra mundial, i.e., pós 25 de Abril em Portugal.
 
posted by magnuspetrus
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