«Cada ratinha tem o seu mistério e desvendar uma não quer dizer que percebemos o mistério total», Puchkine, Diário Secreto
domingo, outubro 08, 2006,10:31 da manhã
A ecoar por Grândola
Depois de ter escrito o meu pior texto de sempre (sendo este sempre o período equivalente a cinco anos de vida precária), deixo aqui o equivalente ao número de Novembro, surgido a quando da leitura de um texto do Henrique Raposo no blog da revista Atlântico e que não tenho paciência para ir procurar o respectivo link.

Corria o ano de 1965 quando os britânicos The Who lançaram uma música que mudaria por completo a noção de geração. Claro está que falo de My Generation, que logo a então conservadora BBC se recusou a passar na sua rádio.

Estavam, assim, inaugurados os primeiros choques geracionais de uma nova classe média pós-II Guerra Mundial. O desejo de corte era de tal forma intenso que a certa altura surge mesmo a frase “ I hope I die before I get old” (Espero morrer antes de envelhecer).

Uma década mais tarde, o igualmente britânico John Lennon escreveu uma das suas mais emblemáticas canções que começa precisamente com um:

As soon as you're born they make you feel small
By giving you no time instead of it all
Till the pain is so big you feel nothing at all

(Assim que nasces, fazem-te sentir pequeno

Ao não te darem tempo nenhum em vez dele todo

Até que a dor seja tão grande que já não sentes nada)

Será que isto representa mesmo a minha geração?

A resposta salta logo à vista: NÃO.

Uma das principais liberdades dessa ou desta geração em que cresci é o facto de não se rever enquanto geração.

Desde muito cedo que as divisões se começam a fazer através de referências musicais (que não só substituíram como suplantaram as literárias), das roupas que se usavam (sempre muito condicionadas pelo que ouvíamos), pelas notas obtidas no Liceu e pelo próprio estatuto social das respectivas famílias. Se alguma das liberdades de Abril foi para mim evidente, foi a liberdade de podermos ser diferentes de todas as outras pessoas que nos rodeiam e de podermos, por fim, rejeitar todas as outras liberdades que nos foram oferecidas. No fundo, o grande lema que me acompanhou durante o período de formação da adolescência foi mesmo o “só tem medo desses muros quem tem muros no pensar/ se o pensamento for livre, todos vamos libertar”, como diria o José Mário Branco.

Findos os estudos e com a atabalhoada entrada no mundo real, surge o primeiro e talvez único grande choque geracional que tive ou terei que enfrentar:

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Neste momento em que vejo estas linhas a surgirem no écran do meu computador, só me consigo lembrar de Nick Drake (que curiosamente me acompanha nestas palavras) e de um intenso sentimento shandy (Marcel Duchamp) face às liberdades da geração que temos que enfrentar. Curiosamente, quarenta anos depois do primeiro grito de Pete Townshed (compositor do My Generation), vivo tudo isto de uma forma saudavelmente egoísta, tal como mandam as regras geracionais.

 
posted by magnuspetrus
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